Brasília, 8 de outubro de 2026

O algodão brasileiro é as duas coisas. É uma commodity, porque a pluma, a fibra beneficiada que sai da fazenda, é negociada em bolsas internacionais, com preço definido pelo mercado global. E é também matéria-prima de uma cadeia industrial extensa, que vai da fiação à confecção e que hoje perde espaço para produtos importados. A avaliação é de duas referências do setor: Gustavo Piccoli, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), e Lucílio Alves, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP.
Brasil exporta a maior parte do que produz
O país colheu cerca de 4 milhões de toneladas de pluma na safra 2025/26, segundo Alves, enquanto o consumo interno, apurado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), gira em torno de 730 mil toneladas. A distância entre os dois números explica o peso da exportação: o Brasil vendeu ao exterior 3,37 milhões de toneladas no ano comercial, alta de 19% sobre o ciclo anterior, segundo a Abrapa.
“O resultado é que hoje produzimos um volume muito superior à capacidade de absorção do mercado doméstico”, afirma Piccoli. “A exportação, portanto, é fundamental para dar vazão à produção e sustentabilidade econômica à atividade”.
Para Alves, a equação é ainda mais simples: sem a exportação, parte considerável da safra não teria para onde ir. “Nós temos uma produção muito superior à demanda interna, então claramente os produtores precisam vender para a exportação”, diz.
Existe espaço para o consumo interno crescer?
Pouco, na avaliação de Alves. Os Estados Unidos, apesar de serem a maior economia do mundo, consomem hoje cerca da metade do algodão que o Brasil consome, um quadro que se inverteu nas últimas décadas por causa da perda de competitividade da indústria têxtil norte-americana para a Ásia. Multiplicar o consumo brasileiro por quatro ou cinco vezes, patamar necessário para absorver toda a produção nacional, exigiria um salto industrial que Alves não vê como realista no curto prazo.
“Qual seria o crescimento industrial, de mercado interno ou da economia brasileira, para que a indústria crescesse a ponto de aumentar em quatro, cinco vezes a sua capacidade de processamento e consumo de algodão? É um crescimento muito expressivo, então não há expectativa de que isso efetivamente aconteça”, afirma o pesquisador. Para ele, a saída mais provável está fora do país: o Brasil é hoje o único produtor com excedente para atender a uma demanda mundial crescente por fibras naturais.
Piccoli defende a mesma direção, sem abrir mão do mercado interno. “Não se trata de reduzir exportações, mas de fazer o mercado interno crescer. Queremos um país forte na produção, forte na exportação e também forte na transformação dessa matéria-prima em fios, tecidos, roupas e outros produtos de maior valor agregado”, diz o presidente da Abrapa.

O preço do algodão no campo chega ao preço da roupa?
Não, segundo Alves. Entre o campo e a prateleira, a pluma passa por fiação, tecelagem ou malharia, acabamento e confecção, antes de chegar ao varejo como linha de cama, mesa e banho, vestuário, acessórios ou produtos técnicos, como sacaria e componentes automotivos. Em cada elo, somam-se custos de transporte, mão de obra e margem, o que dilui o peso do preço pago ao produtor.
“A gente não encontra uma relação entre o preço do algodão e o preço do consumidor final lá no segmento de vestuário, por exemplo. No segmento de fios, essa relação existe, mas vai se diminuindo ao longo da cadeia”, explica o pesquisador. Na prática, uma calça jeans não fica mais cara ou mais barata por causa da variação do preço do algodão na lavoura.
Esse mesmo mecanismo de preço explica por que o diferencial observado em maio, quando o mercado interno chegou a pagar ao produtor 17,5% acima da média de exportação, não virou regra. “Os dois mercados têm dinâmicas diferentes. Esse diferencial foi uma fotografia daquele momento, e não uma condição permanente”, afirma Piccoli. O preço do algodão, lembra o presidente da Abrapa, responde a cotações internacionais, câmbio, qualidade da fibra, custos logísticos e às condições de cada contrato.
A cadeia têxtil perde competitividade?
Segundo Alves, sim, e de forma crescente. Um estudo do pesquisador aponta a cadeia têxtil brasileira como uma das mais deficitárias da economia, por causa das importações, quadro que, segundo ele, vem piorando ao longo do tempo. Até agosto de 2026, o déficit comercial da cadeia têxtil somava US$ 375 milhões, valor próximo de 89% de todo o déficit registrado em 2025, de US$ 423,3 milhões, segundo dados citados pelo pesquisador.
“Em cada um dos elos, da fiação ao acabamento e à confecção, pode-se importar o produto já preparado para aquele segmento. Isso faz com que, apesar de o Brasil exportar entre 75% e 80% do que produz de algodão, a cadeia têxtil continue deficitária em virtude das importações nos demais elos”, resume Alves.
Piccoli reconhece o problema: “A indústria têxtil brasileira enfrenta desafios de competitividade e uma crescente concorrência de produtos importados. Além disso, as fibras sintéticas vêm ganhando espaço na composição dos produtos têxteis”. Ele defende que o debate chegue às políticas públicas, com medidas de ambiente de negócios, tributação, inovação e pesquisa voltadas à competitividade da indústria nacional.

Para Alves, o algodão é tecnicamente uma commodity, por ser negociado em bolsas há mais de um século nos Estados Unidos, mas sua precificação pela indústria varia conforme a qualidade da fibra. “O algodão para fazer uma camisa social precisa ser de melhor qualidade do que o algodão que vai fazer uma calça jeans, por exemplo”, exemplifica.
Piccoli chega a conclusão parecida por outro caminho. “Ele é uma commodity, mas não pode ser visto apenas como commodity. Por trás de cada fardo existe uma cadeia extremamente tecnológica, que envolve pesquisa, genética, produção, beneficiamento, classificação, logística, fiação, tecelagem, confecção, varejo e moda”, afirma. “O algodão brasileiro tem potencial para ser, ao mesmo tempo, uma grande commodity de exportação e matéria-prima estratégica para uma cadeia industrial forte dentro do país. Uma coisa não exclui a outra”.
Beatriz Leal Craveiro
Equipe de Comunicação do Confea
Imagens: assessoria e IA
